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Transformação digital no dia a dia de cada negócio

Objetividade, fluidez nos processos e agilidade para transformar ideias em resultados diferenciam empresas mais aptas a aproveitar as oportunidades tecnológicas

“Porque sim não é resposta”, antecipava às crianças um bordão do programa Castelo Rá-Tim-Bum nos anos 90. Desde então, as inovações tecnológicas – hora como causa, hora como efeito – têm permitido um novo olhar tanto para os contratempos mais banais, como a insatisfação com serviços de táxi em todas as cidades do mundo ou a burocracia dos bancos, quanto para problemas mais amplos, como o gap entre as estratégias empresariais e sua execução.

O conceito de Transformação Digital é tão amplo quanto o de Revolução Industrial, mas ambos têm alguns consensos comuns. Não se tratam de rupturas datadas; envolvem um acúmulo de desenvolvimentos tecnológicos; e redefinem globalmente a forma com que produzimos, interagimos e vivemos. Independente das questões a serem trabalhadas pelos historiadores, algumas mudanças de paradigma já se apresentam no cotidiano de praticamente todas as atividades.

Trabalho baseado em fatos

A capacidade de operar de forma adaptável (ou “responsiva”, para quem prefere o anglicismo) é a mudança essencial em várias etapas dos ciclos de produção e venda de bens e serviços. Na Indústria 4.0, a cadeia de valor se otimiza pela sincronização de seus elos. O varejo dispõe de fontes de dados tanto para customizar ofertas quanto para o just in time de seu back end de logística e financeiro. Em diversos outros casos de negócio, várias tecnologias permitem tirar proveito desse ativo valioso, a informação acumulada ou capturada em tempo real. A modalidade de solução tecnológica varia conforme a necessidade e a complexidade de cada atividade. Inteligência artificial, machine learning e outras soluções emergentes certamente estão na base de muitas inovações. No entanto, recursos já bastante conhecidos - como gerenciadores de regras de negócio, geradores de relatórios, ou ferramentas simples de automação – assumem o papel de direcionar uma gestão mais realista, com decisões e ações mais assertivas ao cumprimento dos resultados.

É claro que a experiência, a criatividade e o estilo das pessoas continuam a determinar a qualidade da entrega e a reputação das organizações. O pulo do gato é combinar subjetividade e estatística; submeter a intuição à realidade.

Colaboração, aproveitando o que o mundo oferece

As inovações empresariais mais disruptivas envolvem tecnologias recentes, mas não inaugurais. Se tomarmos o exemplo do Uber, vemos que o empreendimento só foi possível a partir da disponibilidade de serviços de geolocalização, assim como da visão estratégia dos provedores de meios de pagamento, que apostaram na integração com terceiros por meio de APIs. A integração com o que já existe, de forma estável e com preço sob medida, também agrega uma escalabilidade de custos que desequilibra a relação entre capacidade de investimento e liderança de marcado. Ou seja, o pequeno, com uma boa ideia, tem como incomodar os incumbentes.

Essa abordagem de incorporar componentes comuns em seus processos de trabalho e nos próprios produtos tem vários desdobramentos. Há casos mais simples: a área de marketing, por exemplo, há tempos não se preocupa com codec ou provedor de armazenamento para publicar vídeos institucionais. Em outras situações, os pontos de interseção entre a casa e a rua têm suas peculiaridades. Um exemplo específico: enquanto a publicação de apps foi uma onda em 2016, no ano passado vimos um recuo dessa abordagem para o canal mobile. Os consumidores saturaram seus celulares com aplicativos, e se saturaram de downloads. Ocorreria ao técnico de TI focar em HTML 5, mas a indústria e os consumidores deram outra resposta. Os clientes propõem o que percebem como uma simplificação, no caso o uso de aplicativos e serviços a que estão acostumados. Do outro lado do balcão, os provedores de soluções tecnológicas (pelo menos os mais consequentes) buscam oferecer uma base para a entrega do que interessa ao cliente, com sistemas humanizados, IA etc.

A interdependência com ambientes tecnológicos externos, obviamente, traz imprevisibilidade. Portanto, as estratégicas tecnológicas precisam ser “agnósticas” e “poliglotas”, ou seja, abertas e flexíveis o suficiente para se adaptar às oportunidades e preferências em cada momento.

Vida online e sem muros

Em termos de arquitetura técnica, uma grande vantagem das startups é já ter começado com uma estrutura concebida para serviços online. Seja como causa ou efeito da tecnologia, o organograma, os fluxos de trabalho e o papel das pessoas são voltados a clientes absolutamente indiferentes aos horários, departamentos e procedimentos internos das empresas.

Para as organizações mais tradicionais, as que precisam passar pela Transformação Digital, a arquitetura tecnológica é apenas uma das transições. Revisar os modelos operacionais e principalmente a forma com que as pessoas são instrumentalizadas e direcionadas é vital para trabalhar de forma aceitável à nova geração de clientes.

Ideia e execução em um único movimento

Uma nova geração de estrategistas tem pouca paciência para Power Point e prefere trabalhar direto em frameworks de desenvolvimento, sistemas de apoio a decisão e outras ferramentas que permitam colocar a mão na massa.

As atuais ferramentas e as diversas modalidades de “as a service” abrem possibilidades de prototipação, que tornam as iniciativas bem mais assertivas e eficazes. Mais do que isso, agregam escalabilidade às iniciativas de negócios, com escalonamento de riscos e alinhamento dos investimentos ao retorno.

Segurança transparente, contextualizada e baseada no bom senso

Mecanismos de big data, analytics e inteligência artificial aplicados à segurança de fato representam uma abordagem de proteção compatível com o novo cenário de ameaças. Mais uma vez, contudo, a “transformação” não diz respeito apenas à tecnologia.

Uma das grandes mudanças se relaciona à tendência acima mencionada, de decisões e ações com base em dados reais. A boa notícia é que não faltam fontes de dados. A arte é filtrar a irrelevância barulhenta, perceber os detalhes que importam e proteger o que realmente representa risco. Tudo isso, é claro, pode ter sua complexidade minimizada com um bom desenho de negócio, que limite o escopo dos riscos ao estritamente necessário para a operação se realizar.

Vanderlei Campos - Jornalista